Hana
Eltingham Whitfield, affidavit agosto 1989,
Fiquei em Scientology durante 19 anos, desde março de 1965 até
agosto 1984. A maioria daquele anos, sobretudo os últimos 10, foram
emotivamente, mentalmente e fisicamente traumáticos. Foi a experiência mais
humilhante da minha vida inteira. Inclusive hoje, por causa do que eu vivi,
tenho com frequência pesadelos, fortes dores de cabeça e estresse psíquicos.
Aproximei-me da Cientologia em março de 1965 em Joanesburgo,
África do Sul. Tinha lido o livro de Hubbard "Dianetics: a Ciência Moderna da
Saúde Mental", e fiquei encantada com a sua promessa de ser a primeira
verdadeira ciência da mente. No livro ele dá garantia que o ser humano pode
livrar-se de todas as formas reativas e alcançar um estado 'divino' chamado
"Clear". Afirmava também ser possível ao homem ser completamente livre das
doenças, infecções, dores e sofrimentos, pois gozaria de uma eterna saúde
física, emotiva e mental. As promessas incluíam também um QI mais alto e muitas
outras coisas.
No fim daquele ano encontrava-me na Inglaterra para aprofundar
meus estudos em Cientologia.
Em 1967 fui convidada a juntar-me à elite de Cientologia por um
projeto de Hubbard – o PROJETO DO MAR. Hubbard deu início a esta aventura
sobretudo por dois motivos: fugir da lei e governar seu império internacional da
Cientologia sem interferências.
Em outubro de 1967, Hubbard transformou seu Projeto do Mar em
ORGANIZAÇÃO DO MAR (Sea Org), e quem era envolvido no projeto e desejava ficar
tinha que assinar um contrato por um bilhão de anos de trabalho a serviço dele e
de sua causa.
Os primeiros seis meses que estava a bordo da SY AVON RIVER
(SY: vapor para navegação de rio – ndt) foram agradáveis e excitantes. Passei
momentos de medo durante as freqüentes explosões de raiva psicótica de Hubbard,
nas quais gritava e ameaçava a tripulação às vezes por horas inteiras sem parar.
Chegando até, algumas vezes, a nos colocar de castigo de maneira brutal,
motivado por erros ou desatenções.
Por exemplo, uma vez o 2° engenheiro, Terry Dickensen, um
australiano alto e gentil, não instalou na ponte da Avon River uma rádio
terra-navio Sharpes conforme o programa de Hubbard. A disposição Ética emitida
por Hubbard foi a de proibir Terry de comer juntos aos tripulantes. Porém, o
pior foi proibí-lo de dormir até o rádio chegar de New York, ser instalado e
funcionar, não importando o tempo necessário para isso. Se por acaso ele
dormisse, o castigo de não comer na companhia dos outros tripulantes seria para
sempre e, além disso, teria que sempre dormir na ponte do navio sem travesseiro
ou cobertor. Naquela época eu era o Oficial responsável pela moral e ética da
tripulação, e por isso era meu dever fazer cumprir as ordens. Foram necessários
5 longos dias para a Sharpes chegar de New York. Durante todo o tempo Terry e eu
não dormimos. Eu não dormi para ter certeza que ele não dormiria. Terry nunca
conseguiu recuperar seu vigor depois daquela experiência, e logo depois
abandonou a Organização do Mar; completamente destruído.
Logo depois, Hubbard me fez terminar um relacionamento com um
membro da Organização do Mar (naquela época ainda não sabia que Hubbard
costumava rodear-se de mulheres executivas e levava muito a mal se uma o
abandonava para casar).
No início de 1968 foi entregue o "OT 3". Este é um procedimento
de assistência dos níveis superiores que é secreto e que afirma que milhares de
almas de pessoas que morreram há 75 milhões de anos são "coladas" ao nosso
corpo. Declararam que eu estava pronta para iniciar este nível logo depois que
foi publicado. Lembro a minha surpresa quando pela primeira vez li o material e
a história toda. Pensei que era uma brincadeira, ou uma invenção da imaginação
em estilo de ficção científica de Hubbard. De qualquer maneira, eu li, reli e
estudei cuidadosamente a história, e fiz todo o possível para "audir-me" e
completar o curso. (Todas as reações adversas ao material cientológico são
diligentemente explicadas. Hubbard afirma que as pessoas que não conseguem
"audir" um nível tem problemas de drogas, precedentes ações de "auditing" não
completadas, ligações com pessoas supressivas, crimes, ou uma quantidade de
outros coisas). Mas enfim, consegui terminar o nível naquele mesmo ano, com isso
propiciei a milhares de almas que viveram cerca 75 milhões de anos atrás,
tornarem-se livres do meu corpo, permitindo-as encarnar e viver as suas vidas,
por conta própria.
Levei muitos anos depois que me afastei de Cientologia para
perceber como, na verdade, a Cientologia e seu "auditing" são uma terrível
armadilha; e também para perceber que seus procedimentos utilizam técnicas para
induzir estados de hipnose cada vez mais profundos, e tornar assim as pessoas
"auditing-dependentes" que vivem apenas para a próxima sessão.
As vítimas da Cientologia que continuam vivendo nestes estados
de consciência alterada, terminam sendo autômatos programados que gastam todo
seu dinheiro, tempo e energias na Cientologia.
Mais tarde, em 1968, no porto de La Goluette, Tunísia, recebi a
ordem de zarpar com a AVON RIVER rumo para Melilla, Marroco Espanhol. A AVON
RIVER não era eficiente para a navegação no mar. Tinha um defeito na bomba da
caldeira e sérios problemas no cilindro da alta pressão que dava pane
continuamente.
Na qualidade de Capitão, relatei esses problemas a Hubbard.
Impensadamente ele atribuiu à tripulação e à embarcação a "Condição de Perigo"
(sendo o navio um perigo para navegação). Todos os tripulantes, inclusive eu,
ficamos uma semana trabalhando sem parar e dormindo apenas 2 -3 horas por noite.
Desarmamos e limpamos o condensador. Esvaziamos e limpamos a grande caldeira, os
tubos do vapor que conectavam a caldeira com o motor principal e os tubos entre
o motor e o condensador. Um trabalho enorme. Depois de 7 dias, um dos ajudantes
de Hubbard ameaçou de tornar o castigo ainda mais severo se a embarcação não
estivesse pronta para navegar num prazo de 24 horas. Para evitar outros
castigos, mandei rearmar tudo rapidamente, nos cilindros foram instaladas velhas
guarnições e assim foi possível para a AVON RIVER deixar La Goulette e a
tripulação descansar um pouco.
Em março 1969 conferiram-me o encargo de Oficial Comandante na
Organização Avançada de Los Angeles, e mais tarde, naquele mesmo ano, assumi o
encargo de vice-almirante. Os dois cargos foram-me assinados por Hubbard. Era um
trabalho estressante. Havia uma enorme quantidade de ordens que chegavam todos
os dias do navio-almirante, tinham normalmente 10 - 15 ordens em contradição
emitidos pelos ajudantes mais importantes de Hubbard. O pior era que cada ordem
era para ser cumprida já, e assim era impossível qualquer coordenação.
Além dos problemas de administração, Hubbard mandou que eu
retornasse ao "auding" do nível OT 3. Até o fim de 1970 me "audì" quase todos os
dias. Meu estado mental, emotivo e físico começaram a piorar sempre mais.
Era como se a minha personalidade estivesse fragmentando-se,
como se meu ser estivesse partindo-se em diversos "EUs". Estava me sentindo sem
energia, sem vontade e sem nenhum interesse. A única coisa que desejava era
fugir, dormir e esquecer-me da Cientologia e da Organização do Mar. Estava muito
preocupada com o que estava acontecendo, tinha muito medo. Embora eu explicasse
tudo isso aos "Supervisores de Caso", o único comentário que recebi era que
tinha que agüentar. Nessa maneira continuei a acreditar que o tempo e a
perseverança resolveriam as dificuldades. Logicamente isso não aconteceu. No fim
de 1970 tornei-me um autômato sem vitalidade, emotivamente esgotada, e pensava
apenas em guardar as energias para cumprir o trabalho.
Na volta ao navio-almirante no fim de 1970, tornei-me um dos
muitos ajudantes executivos de Hubbard. Pelos anos que seguiram, continuei a
lutar contra a fraqueza que estava sentindo dentro de mim, e tinha altos e
baixos conforme à disposição de espírito de Hubbard comigo. Passei por um outro
Comitê de Prova (tribunal interno de Cientologia), e Hubbard proibiu-me de
assumir cargos executivos; mas isso também passou e antes de reparar já era a
sua predileta.
No inicio de 1974, a bordo do almirante Apollo, Hubbard
instituiu o Projeto da Força de Reabilitação - conhecido como "RPF" – o qual era
destinado a quem, na imaginação de Hubbard, lhe era hostil (na realidade, quem
não concordava com ele).
A RPF era um lugar, um grupo, no qual quem entrava tinha a
possibilidade de reabilitar-se por meio da tecnologia desenvolvida por Hubbard.
Na realidade era um campo de trabalho forçado no qual os membros viviam, comiam
e trabalhavam em condições humilhantes e degradantes, onde estava firmemente
proibido até conversar com quem não se encontrava na mesma condição. Ficavam
completamente separados do resto da tripulação. Uma noite vi membros do RPF
comendo com as mãos num balde de comida, como mendigos passando fome. Foi aí que
comecei a ficar horrorizada com o RPF e a criar pavor por Hubbard e a
organização.
Por volta do início da década 70, Hubbard conferiu pessoalmente
meu auditing. Entrava em "session" cada dia. Gradualmente persuadi-me de que era
por minha causa que o auditing não estava funcionando comigo, que eu mesma
estava impossibilitando o resultado embora eu não soubesse como. Que fosse
impossível para Hubbard errar, era um ponto fundamental e indiscutível de
Cientologia, assim como a perfeição da tecnologia de "auditing" que ele
descobriu, e que fosse o auditor a errar era muito improvável. A única causa
possível por este fracasso tinha que ser eu.
Em 1974, no meio de um dos ciclos de auditing ordenados por
Hubbard, apareceu uma pesada dor de cabeça. Apesar da utilização de todos os
recursos, ela permaneceu o dia inteiro. Continuou, e continuou a semana toda,
assim como a semana seguinte, e daí pela frente por mais 10 anos. Duas, três
vezes por semana era tão forte que não tinha a possibilidade de trabalhar. A
única maneira de agüentar aquela dor, intensa e latejante, era ficar sentada na
minha cabina com o queixo encima dos joelhos e esperar 2 - 3 dias. Nessa maneira
me tornei a cada dia mais paranóica em relação à minha "malvadez", pois era
impossível que a causa dessa dor fosse Hubbard ou a sua filosofia o a sua
tecnologia. TINHA QUE SER EU. TINHA que ser uma coisa que eu fiz num momento
qualquer do meu passado, ou algo de horrível e malvado que tinha dentro de mim e
que ainda não tive a coragem de encarar. Hubbard mandou continuar o auditing,
mas continuei escrava da dor de cabeça. As vezes era um pouco mais leve, as
vezes mais pesado, mas nunca me deixou.
Desde o final de 1975 até março de 1982, morei e trabalhei no
Fort Harrison Hotel, Clearwater, Flórida. Esta mudança aconteceu no final de
1975, quando a Organização do Mar mudou-se para o Fort Harrison Hotel, onde
instalou o novo quartel-geral. Hubbard tinha dirigido toda a operação de
mudança, inclusive a escolha dos nomes de fachada para a Cientologia. Fazendo
com que esta pudesse mudar para Clearwater secretamente e sem problemas. O grupo
de "inteligência particular", que gerencia as operações secretas contra os
críticos da Cientologia, tomou parte da operação de mudança.
Desde outubro de 1975 eu assumi variados encargos na FLAG, que
é o nome do complexo de Organizações que se encontram no Fort Harrison Hotel e
em outros edifícios ali por perto. Eu era uma oficial da FLAG Service
Organization, que é a mais importante organização da Cientologia nos EUA.
Naquela época, como parte da equipe, as vezes tinha
conhecimento das queixas públicas contra a Cientologia. Porém, encontrava-me
completamente alheia às operações secretas do Guardian Office contra o prefeito
de Clearwater (Senhor Gabriel Cazares); ou contra o cientologista Mike Meisner,
assim como o fato da gerência da Cientologia estar discutindo o possível
homicídio deste membro. Mike Meisner era integrante do Guardian Office, e o
plano era de jogá-lo no mar com pedras amarradas nos pés para o impedir de
revelar ao FBI as operações secretas do Guardian Office (dirigido pessoalmente
por Hubbard) contra agências do governo dos EUA, inclusive a FDA (Food and Drug
Administration, controla os remédios etc. - n.d.t.), o AMA (American Medical
Association - n.d.t.) e outros; assim como revelar os nomes das pessoas
infiltradas em muitas agências do governo, inclusive o Departamento da Justiça.
Também não tinha conhecimento dos projeto e operações secretas que custaram à
Cientologia 250.000 dólares, para comprometer o Juiz da Florida Richie, que
naquela época presidia um processo contra a Cientologia. Felizmente, a operação
do Guardian Office não deu certo.
Nos meus primeiros anos em Clearwater, eu estava ciente que
Cientologia era profundamente depreciada pela opinião pública da cidade, as
marchas de protestos na frente do Fort Harrison Hotel eram freqüentes. Os
representantes do Guardian Office disseram-me, e disseram aos outros membros da
equipe, que o rancor contra a Cientologia era fomentado por seus inimigos. Entre
outros estavam: a CIA, o FBI e as instituições de Saúde Mental. Naquela época eu
acreditava nestas informações, pois eram as únicas disponíveis. Todo a equipe
estava proibida de ler jornais ou revistas, para que nós não conhecêssemos as
críticas contra a Cientologia. Era proibido também assistir TV, e por isso não
podia-se encontrar TV no Fort Harrison Hotel. Durante a minha permanência ali,
minha saúde mental e emotiva continuou a piorar. Tinha que lutar para manter um
aspecto "normal". Eu continuava a trabalhar com toda minha capacidade.
Com frequência tinha que abandonar o trabalho por causa da dor
insuportável. Comecei a pensar em suicídio, pois não enxergava outra saída para
aquela situação e achava que a causa estava dentro de mim. Às vezes, quando a
dor de cabeça era insuportável, pensava no modo como poderia me matar sem
prejudicar a reputação de Cientologia. Naquela época ainda não fazia a menor
idéia de como, por tantos anos, tinha sido tão enganada e explorada pela
Cientologia e por Hubbard. Programei a destruição de todos os documentos que
mostravam a minha ligação com Cientologia e suicidar-me longe de Clearwater.
Falei disso com meus auditores e tentei continuar o dia a dia de maneira mais
normal possível.
Depois, em 1978, tive que entrar no Projeto da Força de
Reabilitação (RPF), ou seja: condenaram-me ao campo de trabalho forçado da
Organização do Mar. Isso porque eu "tinha maus pensamentos" contra Hubbard e
contra Organização do Mar. Foi um choque traumatizante que me devastou ainda
mais. Fui levada para a área do RPF por dois homens altos, mais de 1.80, e
grossos. Por cerca de 24 horas fiquei trancada num compartimento sem janelas. O
tempo inteiro fui controlada, e eu fiquei deitada em de um colchão que estava no
chão, sem lençóis, nem cobertor. Fiquei acordada a noite inteira, em estado de
choque, as vezes chorando, as vezes completamente tonta, sem pensamento
nenhum.
Estava sentindo um forte impulso de fugir, mas sabia que não
podia fazê-lo, e que tinha finalmente que enfrentar a minha verdadeira
personalidade e descobrir quanto eu era realmente malvada e ruim.
Estava sentindo-me partida em diferentes pessoas: uma era
gentil, doce e profundamente traumatizada; a outra uma pessoa fria, calculista,
e espantosamente perversa, cuja única finalidade era fazer o mal; e depois uma
outra pessoa terrivelmente confusa que não sabia qual das outras duas era a
verdadeira. Era como se a minha mente tivesse sida arrancada, não conseguia
pensar. Atirei-me cegamente na rotina de dever sempre correr (os membros que se
encontram no RPF não podem caminhar, devem sempre correr), de falar somente
quando era interpelada, de sempre chamar a todos por "Senhor", de cumprir
tarefas humilhantes como limpar latrinas, de sempre vestir macacões velhos e
sujos, de mostrar aos outros que ando sempre correndo no mormaço da Florida,
suada, sem maquiagem, despenteada, fazendo trabalhos sujos e embaraçosos na
frente das pessoas. E tudo isso sempre transtornada pela dor de cabeça.
Pedi para poder apresentar-me na frente de um Conselho de
Revisão. O Conselho recusou-se a receber-me pessoalmente, sentenciou que foi
justo me condenar ao RPF e ordenou-me de terminar o ciclo.
Os membros do RPF são completamente isolados do resto da
equipe. Vivem, dormem e freqüentemente comem na garagem do Fort Harrison Hotel
entre o gás de escape. São ruínas de ser humanos, que aqueles macacões sujos
tornam ainda mais parecidos a despojos. As mulheres são proibidas até de
pentear-se. No verão, que na Florida é terrivelmente quente e úmido, é proibido
usar roupa leve: somente a pesada roupa de marinheiro.
Os membros do RPF devem correr continuamente. É firmemente
proibido caminhar. Devem correr enquanto limpam banheiros e latrinas, enquanto
colhem o lixo ou quando andam pelos 12 andares do Fort Harrison Hotel levando
latas, coisas pesadas para a limpeza, ou até material de construção. É proibido
a eles o uso do elevador.
Para que os inspetores da prefeitura ou da higiene pública não
vejam as verdadeiras condições do RPF, os "RPFianos" são treinados a tornar seus
dormitórios em algo que pareça um normal armazém, e tudo isso muito rapidamente.
Muitas vezes esperei que uma autoridade aparecesse de repente para inspecionar
as cozinhas, ou as garagens, ou as enfermarias do Fort Harrison Hotel, mas isso
nunca aconteceu.
Esta é a vida real no RPF. Alguns entre nós dormiam sobre finos
colchões deitados sobre o cimento do chão. Não havia onde botar a roupa, assim
era preciso deixar todo nas malas e nas bolsas abandonadas no chão. Para ter um
pouco de privacidade, lençóis eram pendurados entre os colchões.
Homens e mulheres tinham banheiros separados mas eram muito
pequenos. Era proibido demorar na ducha mais de 30 segundos. Era o tempo apenas
suficiente para entrar e molhar o corpo. Nenhuma folga era permitida para
conversas ou relaxamento. Acordávamos no máximo às 6.30, tínhamos que cumprir
pesados trabalhos, com frequência como pedreiros, e fazer as limpezas até
noitecer. Depois da ducha de 30 segundos e a troca da roupa, devíamos audir-nos
reciprocamente e "reabilitar-nos" até as 10.30 da noite ou mais. Não existem
dias de folga, trabalhávamos sete dias por semana. Tínhamos que comer nas
garagens, as vezes nos era permitido comer no refeitório, depois que todos os
outros tinham saído. Nosso alimento era o que sobrava nos pratos do resto do
staff. Somente em ocasiões especiais, como por exemplo no Natal, era-nos
permitido fazer um pouco de comida. Isso caso se o que sobrasse não fosse
considerado suficiente.
A disciplina no RPF é muito rígida e não tolerava a menor
resistência de qualquer tipo. A menor infração era castigada na hora fazendo
subir correndo inúmeros andares do prédio. A mais inocente infração merece uma
pena firme e severa. Cada regra deve ser respeitada ao pé da letra, sem levar em
conta sua certeza ou se naquela situação não fosse factível.
Por algumas infrações, o membro é condenado ao RPF do RPF, um
lugar no compartimento das caldeiras nos subterrâneos do Fort Harrison Hotel,
entre caldeiras e tubos ardentes, o dia inteiro estrondeando e soprando. O
compartimento não tem iluminação suficiente e consta de pequenos espaços de
interconecção nos quais, as vezes, era preciso arrastar-se para passar em baixo
ou em cima enormes tubos ou caldeiras de três metros e meio de altura. Era um
lugar escuro e abandonado, de certa forma assustador. Uma das minhas colegas foi
levada ao RPF do RPF durante dois meses, e isso por ter recusado uma ordem do
Guardiam Office de divulgar notícias confidenciais. Ficou trancada naquele lugar
o tempo inteiro, com poucas possibilidades de tomar um banho e até de usar o
banheiro. O tempo todo foi ameaçada e molestada verbalmente por seus superiores
do RPF. Quando ressurgiu era uma pessoa quebrada, com a personalidade vencida.
Silenciosa e rancorosa, logo conseguiu fugir do RPF e do Fort Harrison Hotel.
Seu nome era Lynn Froyland.
Nunca mias tive notícias dela.
O RPF foi instituído com a finalidade de "reabilitar e
redimir". A intenção apresenta-se positiva, dedicada a ajudar o indivíduo quando
ele mesmo não tem a possibilidade de ajudar-se. Na opinião de Hubbard, força,
severidade e castigo são os elementos necessários para quebrar as reações e as
emoções humanas, assim salvando a alma (o thetan). Eu acreditava em Hubbard. Mas
estava experimentando aquela humilhação, aquela degradação e o absurdo do RPF.
As teorias de Hubbard começaram a não fazer mais sentido para mim. Entrei num
estado de profunda confusão e de instabilidade mental e emotiva que persistiu
até que enfim me perdi!.
Num dos princípios fundamentais da Cientologia, Hubbard afirma
que se alguém critica uma pessoa ou um grupo, significa que ele fez algo de ruim
a esta pessoa ou grupo. Esta crença tem uma importância enorme na Cientologia, e
deve ser firmemente respeitada. É comum que a equipe e o público, recebam
auditings aprofundados, assim como "verificações de segurança" quando se
descobre que disseram coisas, mesmo que leves críticas, contra Hubbard, a
Cientologia, ou uma parte da organização. Esta prática funciona perfeitamente
para bloquear a mente, e a única finalidade é reformar o pensamento do indivíduo
e sua conduta, para torná-lo um escravo fiel e dócil. Não sabia tudo isso quando
eu me encontrava no RPF, e se na época alguém tivesse me falado nisso, como
qualquer cientologista, eu teria negado com firmeza.
Durante o tempo todo que fiquei no RPF eu me sentia cada vez
mais degradada, inútil e tensa na tentativa de harmonizar a escravidão do RPF,
seus aspectos abertamente anti-sociais e a finalidade da Cientologia - que é a
de devolver ao homem sua completa liberdade. Me apliquei com todas minhas
forças, nas horas do auditing, para descobrir as más e danosas ações que tinha
cometido e que eram a origem de minhas penas e emoções negativas.
Por volta do fim de 1978 fugi. Afastei-me do RPF sem
autorização e de avião fui na casa de amigos em New York, os quais me
hospedaram. Num prazo de uma semana o senhor da Ética da FLAG, Tom Provenzano,
conseguiu me localizar. Por telefone ameaçou declarar-me como "pessoa
supressiva" e de querelar-me, ameaçou espionar e molestar minha vida inteira se
eu não voltasse, na hora, para Clearwater. Entrei em colapso. Voltei a
Clearwater e ao RPF, mas somente depois que Provenzano tivesse garantido que
quando eu chegasse teria a possibilidade de conversar com ele sobre a minha
entrada no RPF. Ele não cumpriu a promessa. Não suspeitava que a sua promessa
era apenas um engano para fazer-me voltar. Quando fui de novo no RPF sucumbi
completamente. Voltei de novo ao trabalho, a correr, suar e sofrer; sempre
acompanhada pelas dores de cabeça.
Levei um ano para sair do RPF, tornando-me um autômato
tranqüilo, humilde e obediente, mais dócil que nunca. A dor de cabeça era uma
presença constante em minha vida. Naquela época a inquietação de ser uma pessoa
malvada acalmou-se, mas nunca me abandonou. Procurava continuamente ganhar a
estima dos meus superiores como maneira de sobreviver.
Recusei de assumir novamente encargos de gerência e finalmente
permitiram-me voltar a audir os outros.
Fui um bom auditor por muitos anos. Em 1980, na Clearwater,
ganhei o prêmio de "Auditor do Ano".
A intensidade da dor de cabeça as vezes reduzia-se, as vezes
tornava-se maior. As vezes eu recebia auditing para curar a dor, mas nunca vi
uma melhoria importante. Continuaram também os pensamentos de suicídio. Estava
desesperadamente precisando sair daquela situação. Estava querendo muito dormir,
descansar, mas sobretudo sair daquele mundo louco. Porém, não tinha lugar onde
abrigar-me, não tinha dinheiro para viajar à lugar nenhum, e nenhum lugar para
alcançar. Minha família morava no outro lado do oceano. Não tinha como chegar
até lá, e eles não tinham como ajudar-me. Se abandonasse o edifício seria
declarada "pessoa supressiva", e isso me fechava qualquer contato com os amigos
cientologistas. Era uma estrangeira residente nos EUA, e não sabia como
encontrar um trabalho. Estava sentindo-me presa numa situação sem saída.
Imprevisivelmente, em 1981 um velho amigo com o qual, em 1967,
tive um caso, entrou em contato.
Depois de uns encontros pediu-me para casar com ele e aceitei.
Foi aí que comecei a fazer projetos secretos de abandonar Fort Harrison Hotel e
voltar a uma vida normal. Em março de 1982 finalmente eu fui, depois de um
tormento de 3 meses feito de controles de segurança, gritos, ameaças. Depois que
por 3 meses perguntaram-me gritando enquanto estava conectada ao "e-meter"
(elementar máquina da verdade usada por Scientology- n.d.t.) se eu trabalhava
com o FBI ou com a CIA, o Governo dos EUA, a máfia, o FDA, a AFF, serviços
secretos, ou centenas de outros presumidos dissidentes da Cientologia.
Acusaram-me furiosamente de ser paga por eles. Fui culpada enfurecidamente de
estar em contato telefônico com eles. Eram todas falsidades. Com infinita
tristeza escrevi qualquer ato ruim que conseguisse lembrar ter feito, e
trabalhei por horas sem fim, de noite e de madrugada, noite depois noite durante
uma semana "para compensar o imenso dano que tinha causado". E escrevendo
comecei a imaginar pecados sempre maiores e sérios numa nova tentativa de
alcançar aquela parte má que estava dentro de mim. Nem isso deu certo.
Fui embora depois de ter reparado que estava cansada de tudo
isso, e que ,nunca mais, seria submetida àqueles abusos terríveis, e que nunca
mais aceitaria novamente aquelas ameaças que me fizeram verbalmente e por
escrito na tentativa de "salvar a minha alma". Ameaças de querelar-me,
expulsar-me, declarar-me "pessoa supressiva", que faleceria rápido, que seria
processada por o Comitê de Prova (o tribunal particular da Cientologia -n.d.t.),
que meu futuro seria trabalhar nas cozinhas, que seria assinada novamente ao
RPF, que minha eternidade estava destruída, e que seria molestada a vida
inteira.
Finalmente, por volta do fim de março de 1982, saí do Fort
Harrison Hotel, com o eco dos gritos de ameaças que se misturavam com o ruído
dos meus passos.
O casamento não deu certo. Meu esposo foi molestado e ameaçado
pelos cientologistas de Clearwater e não agüentou tanta pressão. Terminamos sem
brigas e rapidamente fui embora: sabia que tinha a possibilidade de continuar
sozinha.
Tinha abandonado meu compromisso com Cientologia e a Companhia
do Mar, mas ainda desejava ser uma boa cientologista, e por isso eu fiz um
programa para ser aceita na Cientologia em boas condições. O programa consta de
5 pontos, que cumpri todos na maneira mais diligente possível. No fim de 1983
fui novamente aceita pela Cientologia e em 1984 trabalhei brevemente para a
Sterling Management (um grupo de fachada, ou seja: uma empresa que nega ser
ligada a Cientologia, mas tem como finalidade procurar novos adeptos para a
seita - n.d.t.). Fiquei arrepiada quando reparei que estava envolvendo-me em
situações parecidas com aquelas da FLAG, e assim, depois de ter cumprido minhas
tarefas, fui embora.
No agosto de 1984 resolvi abandonar definitivamente a
Cientologia, a melhor decisão da minha vida. Foi somente no fim de 1984 - início
de 1985, que comecei a descobrir o lado obscuro da Cientologia e suas refinadas
técnicas de controle mental praticadas com todos seus adeptos.
Agora, minha vida vale a pena ser vivida.
Eu fui uma daquelas que tiveram sorte.
Tradução: M. Martinelli
*Título original: Viver em Cientologia
Hana Whitfield, cientologista
durante 19 anos, vice de
L. Ron Hubbard nos EUA , conta a sua
história.
Fonte: artigo colhido no site "Alarme Scientology".


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